Santo António da Neve, Serra da Lousã, Castanheira de Pera, 26/03/2011.
No antigo Cabeço do Pereiro, a 1058 m de altitude, ergue-se uma capela em honra de Santo António e porque foi mandada construir em 1786 por Julião Pereira de Castro, neveiro-mor da casa Real, passou o local a designar-se por Santo António da Neve.
Segundo um trabalho do Dr. Herlander
Machado, os poços da neve ali existentes são seguramente mais
antigos do que a capela. Admite-se mesmo que sejam muito anteriores
a Julião Pereira de Castro no ofício de que só há notícia
devidamente documentada a partir de 1757 em alvará de D. José
também assinado pelo Marquês de Pombal.
Dos sete poços construídos somente restam três que pela sua
raridade foram considerados imóveis de interesse público.
Estes três poços de construção tosca são redondos no seu interior;
todavia dois são octogonais no seu exterior e um é circular. Estão
cobertos por abóbadas de pedra em forma de sino achatado e todo o
conjunto foi edificado com a pedra negra da região. Cada poço tem
uma só porta, estreita, virada para nascente, como para evitar que,
quando o Sol é mais forte, possa entrar pela estreita porta e
derreter a neve ali guardada.
Utilizando escadas de mão, feitas em tosca madeira, os homens
desciam ao fundo destes poços - que então tinham uma profundidade
superior a uma dezena de metros - e à medida que neles iam sendo
despejadas as cestas com neve iam calcando esta com pesados maços
de madeira que empunhavam vigorosamente, à maneira dos calceteiros
de hoje.
Empedernida, isolada entre os paredões alisados pelo estuque,
coberta depois de palha e fetos, a neve conservava-se nesses amplos
reservatórios, até ao Verão - sem que uma réstia de Sol lhe pudesse
chegar.
Quando chegava o tempo quente, a neve era cortada e seguia em
grandes blocos para Lisboa. O transporte era feito, numa
primeira etapa, em ronceiros carros de bois. Apenas três ou quatro
desses grandes blocos podiam ser carregados nessas robustas
carroças e eram cuidadosamente envolvidos em palha, em fetos, mesmo
em serapilheiras ou, ainda, metidos em caixotes.
Mas, mesmo assim, diz o testemunho oral que muita neve se perdia
pelo caminho percorrido através dos tortuosos carreiros da serra,
quase penosamente.
Em Miranda do Corvo fazia-se a primeira muda dos animais e depois
os carros partiam para Constância onde, da via terrestre, se
passava para a via fluvial até ao Terreiro do Paço onde eram feitos
saborosos gelados para o Rei e sua corte, tão saborosos que os
Lisboetas os procuravam no Martinho da Arcada e outros
cafés.
